Ouvir o Dia...

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

As árvores protegem em silêncio...


e depois chegaste tu
muito tempo após a longa espera
o maior desespero as marés a mudarem
tantas vezes que nem sei
posso ainda escolher dizer-te
amo-te muito tanto ou tão pouco
que quero-te morder até às mãos
as duas até ficarem vermelhas roxas
como pétalas de hortenses mudando a cor
é tão lenta a passagem dos dias
quando o sol se põe atrás do coração
sabes já não tenho doze anos
a incerteza da primeira paixão
o nervoso de espreitar outro sorriso
se por acaso se encontrava com o meu
e o medo o medo nocturno
terrível o silêncio a amargura de não saber
que era feito de mim onde procurar
o braço que aquece e diz envolvendo
sossega amor sossega
olha é só a vida a passar rápido
que tudo é mesmo pouco
para a tomarmos demasiado séria
"Alguma Tristeza"
1979 Outros Poemas - Pedro Strecht



sábado, 14 de fevereiro de 2009

Namorar com a Vida

«Uma avenida nova para o coração»
Tudo o que o amor não é - Eduardo Sá
Há pessoas para quem o coração devia ser um condomínio fechado. Um lugar longe dos outros, sem erros de «casting», sem fadiga, sem aborrecimentos e sem preguiça.
Para essas pessoas, o amor talvez seja só o reflexo dos seus sonhos ou o eco do desejo. De tanto tentar um amor bacteriologicamente puro, um coração assim transforma a vida num enorme «vai-se andando».
Mas um coração só se torna habitável quando confronta os pais do nosso desejo com um amor que se afasta de tudo o que desejámos. Até porque:
  • nenhum amor é em «primeira mão»;
  • o desejo, é amor à primeira vista. A esperança (em alguém)... amor à segunda;
  • o amor é uma «longa-metragem» e não tanto, como poderia parecer, uma sucessão de efeitos especiais;
  • o amor pode ser uma «família de substituição», mas só se transforma num céu quando se conquista com pecados - por pensamentos, por actos e por omissões.

O amor é uma avenida nova que se abre muito para além dos dilemas entre a família que tivemos e os sonhos de pessoas «soalheiras» que fomos desejando ter. É essa a diferença entre as pessoas que se sentem vivas e aquelas para quem a vida se transforma num «vai-se andando».

P.S. em Hi-fi: Não se esqueçam de conjugar o verbo amar 365 dias por ano!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Com a cabeça no ar e os pés nas nuvens

Ao contrário da gaveta das t-shirts das crianças, os adultos parecem ter sempre as ideias bem vincadas e (imagine-se) a cabeça sem nódoas e arrumada. Não misturam as pratas das bolachas de chocolate com as meias ou os cadernos, nem deixam (como as crianças) de lavar a roupa suja - ... sobretudo quando se zangam - em vez de a deixarem espalhada pelo chão.

Mas, infelizmente, tanta arrumação não autoriza os adultos a deitarem-se na relva, de nariz para o ar, descobrindo, nas nuvens, elefantes, velhas feiticeiras, ou sinais de fumo que (quem sabe?) talvez cheguem duma tribo acampada algures, nalgum lugar do céu.

Se a cabeça não lhes pesasse sobre os ombros, os adultos andariam mais vezes com ela nas nuvens, e perceberiam melhor que nem sempre a cabeça arrumada e, aparentemente, sem nódoas, é «o céu» que lhes permite ser mais bonitos e mais felizes.



in «Faz tão bem andar de cabeça no ar» do livro «Tudo o que o amor não é» - Eduardo Sá



sábado, 27 de dezembro de 2008

O Medo dos Dias Molhados


«Não podemos andar sempre à sombra da chuva. Por vezes, temos mesmo de nos molhar!»

Margarida Brito - À Sombra da Chuva

«Milhares de pessoas que anseiam pela imortalidade não sabem o que fazer com uma tarde de chuva»

Susan Ertz

«O medo não existe. Não tem identidade ou realidade pessoal. Precisa de ti para viver, das tuas dúvidas, das tuas fraquezas.»

Dugpa Rimpoché


terça-feira, 11 de novembro de 2008

Novembro

há pétalas a celebrarem sozinhas

a linguagem do amor

o cheiro da terra molhada

quando sobre o jardim cai novembro

a humidade que nos abraça

o lusco-fusco precoce da mudança da hora

o crepúsculo já frio da tarde

pede o calor da lareira um interior

que aconchegue e sorva

o sabor do chá então servido


todo o tempo do mundo pode parar

assim que alguém lho peça

mas o maior motivo sabemo-lo

não tem hora marcada nasce cresce mata

sempre que menos se espera

já tive dias horas meses assim

suspenso na vida pelo coração

a maior das ilusões todos os desenganos

mas não importa que interessa

não os trocava por nada

e o que as pétalas desse jardim ensinam

não vem nos livros tem séculos

é um cheiro a suavidade de um toque

tudo o que não falaremos

os movimentos da memória das vidas

a cor de que são pintadas

e a diferença de tom em todas as flores

a beleza eterna de cada

como dádiva é isso

sim é isso

o que fica por dizer




Pedro Strecht

in 1979 Outros Poemas

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Para ti!





Os amigos estão onde está o coração.
Estão no afecto de um murmúrio,
estão no perfume de uma carta,
estão na cumplicidade de um silêncio,
estão num retrato sem data
ou no ínfimo recanto de uma casa
onde a memória de um brinquedo
resgatou a infância ao esquecimento,
estão no júbilo de uma tarde de Verão
ou no vazio que só as lágrimas
julgam ser capazes de preencher.

Os amigos estão onde está o coração.
Estão dentro de um livro
ou à volta de uma mesa
na penumbra de uma sala inquieta,
estão na zona imaterial e secreta
daquilo a que por vezes receamos chamar alma,
estão na infinita ternura de um abraço,
no consolo inesperado de um telefonema nocturno.

Os amigos estão onde está o coração.
Alguns, com o tempo, tornam-se irmãos,
tamanhos foram as provas que a vida,
sem aviso e sem alarde, lhes quis impor.

Os amigos estão onde está o coração.
Têm um copo na mão, para celebrar,
um poema adiado na secura dos lábios,
têm uma flor e um pássaro
no cofre dos tesouros inenarráveis,
têm sempre o nosso nome presente
quando é preciso dar a vez,
ou apenas quando é preciso,
têm um livro de lembranças
onde não cabem o deve e o haver,
têm o mar ao fundo, atrás de uma janela,
e não deixam que a amizade
se resuma à solidão branca e uma ilha.

Os amigos estão onde está o coração.
São a claridade e são o tecto, são o tacto,
a porta que se abre quando a mágoa dói,
são o que está para além
da tenaz, do espartilho, da teia dos interesses,
são a voz que nada pede em troca
para dizer que está presente,
são o que sobra e sobrevive quanto tudo o mais
parece estar contaminada e ferido.
Falo, claro, dos amigos verdadeiros, pois não conheço outros.

Os amigos estão onde está o coração.
Estão na guerra como na paz, de pé,
desarmando a surdina da intriga
e o veneno letal da calúnia,
estão onde as palavras não chegam
e os dias minguam de tristeza
porque a razão que os move não prescreve,
porque o afecto que os anima não tem preço,
porque o fogo que os mantém não queima nem divide.
Porque é eterno como a felicidade de um instante.


José Jorge Letria