Ouvir o Dia...

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sexta-feira, 27 de março de 2009

Hoje almocei saudades


Mora dentro dentro de mim um ser nostálgico que, de vez em quando, se manifesta. Suponho, aliás, que esse ser habite dentro de qualquer um de nós, embora me pareça que grande parte das pessoas resista a assumi-lo. Por mim, confesso que, não só não me importo como até me sinto estranhamente mais inteira quando ele me visita. Hoje, foi um desses dias.

O almoço era caldeirada de bacalhau. Embora irrepreensivelmente confeccionada por uma ucraniana, que cozinha à grande e à portuguesa, eu até me tenho andado a portar bem, razão pela qual me sinto aliviada de castigos. Ora, juntando-se a fome à vontade de comer, pus-me a caminho de um cantinho de que gosto particularmente, sobretudo quando estou acompanhada desta minha inquilina secreta chamada Nostalgia. Livro em punho e lá vou eu, absorvendo pelo caminho a profusão de chilreados da passarada com ninho novo, o ar cálido, ainda que ligeiramente temperado por uma ténue neblina do Atlântico que mora perto, e o cheiro a flores silvestres.


Por ali, a escolha gastronómica, baseada em pratos despretensiosamente diferentes e saborosamente originais, é sempre difícil. Hoje, curiosamente, tinha uma novidade quase prosaica para o ambiente em causa: pasteis de massa tenra com arroz de cenoura. Não tive dúvidas. Era isso mesmo que queria.


Nunca ninguém parte, verdadeiramente, da nossa vida. Há sempre como nos reencontrarmos com quem dividiu fisicamente o espaço da nossa existência. O lugar da memória é um local privilegiado para tudo e todos se encontrarem.


Poucos olfactos guardo da minha infância. O meu faro é a intuição e, nesse campo, julgo que a natureza foi generosa comigo. Em compensação, guardo sons, muitos e abundantes sons. E muitos gestos também.


Lembro-me do ritual, em cima da bancada de cozinha, de tampo de mármore. A farinha, em montanha, que depressa se assemelhava mais a um vulcão, logo que o peso dos outros ingredientes lhe abria uma cratera... A água morna, a margarina que eu cortava em lascas- as primeiras com autorização, as outras à conta da distracção- para comer... A pitada de sal. Os gestos que tudo envolviam, remexiam, tendiam e estendiam. O rolo da massa. A carne quente, cheirando a salsa, recheando o coração. A chávena que desenhava o corte final. As aparas que dela sobravam e com que eu reproduzia a iguaria, para as minhas bonecas.


Hoje, entre outras saudades, também almocei contigo avó. Os pasteis não chegavam aos calcanhares dos teus, mas, quem sabe, se até nisso não estiveste tão mais perto? Perguntei-me: será que o diabo também veio hoje a esta cozinha? Sorrio. Quem te conhecia sabe bem porquê...
A massa da vida nem sempre é tenra...



... E as saudades são como a manteiga em pão quente - derretem-se da alma para o coração.


Não vem a propósito ou talvez sim: na ribeira, que fica mesmo ao lado deste cantinho onde me gosto de aconchegar, e que se chama precisamente Ribeirinha de Colares, já há uma trupe de patinhos novos, a quem as crianças da vila se entretêm a mandar migalhas.


Já agora, só porque sim: Gosto de ti, Primavera!














segunda-feira, 16 de março de 2009

Verão que ainda não veio para ficar (com apetites à mistura)

Hoje, à saída do trabalho o ar cheirava não a Primavera mas a Verão. Aquela ainda não chegou e este, segundo o calendário, ainda vem longe. Pequenos detalhes em que, a esta hora, e inebriada com o dia e começo de noite, pura e simplesmente, não me apetece pensar.
O meu carro na beira da estrada, o pinhal em frente, o silêncio da "aldeia"... o ambiente quente que vem perfumado de um campo aquecido pelo calor do dia... 16º é temperatura que nos presenteia o ar ... Encho o pulmão e aconchego a alma.
Não sei a que cheirava a cidade, àquela hora em que todos regressam a casa para amanhã regressar ao trabalho. Mas a minha "aldeia" cheirava a vida, a paz, a natureza, a uma boa parte do melhor que vou guardando de mim... talvez por isso seja tão bom pensar que, amanhã, é lá mesmo que vou regressar.
(como uma borboleta estonteada com as maravilhas da estação, ao ouvir a música de hoje fico com uma vontade de dançar...)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Plágio

Aninhada nos pés da serra de Sintra, a vila descansa da chuva que lhe engrossou o caudal da ribeira e respira os bons ares do campo. Quem passa, passa devagar, porque o tempo não tem pressa. É sempre hora de chegar.
Nos lugares pequenos contam-se sempre muitas histórias. São elas, mais do que os seus protagonistas, que alimentam os dias. A forma como nascem, crescem e morrem, pouco interessa. Por vezes esgotam a sua vida antes do Sol se revezar com a Lua. Esta nasceu junto de uma caixa de multibanco, numa A4 branca, onde ficou guardada ao premir sentido de uma tecla Caps Lock.
Nasceu, mas temo que tenha sofrido prematura morte súbita...
POR FAVOR:
AJUDE-NOS A ENCONTRAR CASA PARA OS CÃES DA SR.ª DONA ARMINDA, QUE VIVIA EM FRENTE DA FARMÁCIA DE COLARES E QUE FOI AGORA PARA O LAR.
ESTES CÃES ERAM A SUA FAMÍLIA E, TANTO A DONA COMO OS CÃES ESTÃO EM PROFUNDA TRISTEZA.
CONTACTO: INÊS 96*******
Esta história já estava contada. Só não consegui resistir ao plágio...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Com ou sem açucar?...

O inédito está no pedido e não na situação, talvez por isso ainda não tenha deixado de pensar nela.
Acabado o almoço, vim até à porta do café e acendi um cigarro. Nesse mesmo instante, um rapaz na casa dos vinte e poucos, alto, forte, de aparência e aspecto comuns, abordou-me e balbuciou um qualquer pedido que não percebi. Retorqui:
Desculpa, não percebi... Ele repetiu:
Pode pagar-me um café? Acto continuo respondi:
Claro que sim!
Sugeri-lhe que entrasse e pedisse. Assim que terminasse o cigarro entraria para saldar a conta. Foi o que fiz.
Quando entrei estava sentado numa das mesas da entrada. Era inevitável fazer-lhe aquela pergunta:
Quer mais alguma coisa?
Peremptoriamente educado, respondeu-me:
Não, obrigado.
Talvez a situação não tenha mesmo nada de insólito e não haja nenhuma moral para esta história, mas a verdade é que as perguntas, dentro de mim, ficaram mesmo a bailar, até agora.
Gostava tanto de saber se aquele café foi com ou sem açúcar...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Trabalhar no Campo

Conduzir por uma estrada que se veste com as cores da estação. Ver Monserrate resguardado do nevoeiro, aconchegado por entre vegetação equatorial. Fazer corridas com o ocioso eléctrico, que não tem pressa de chegar. Encontrar as mesmas gentes, nas mesmas curvas, todos os dias. Conhecer os rituais do senhor da loja de faianças, e passar sempre os olhos pelos seus escaparates de pratos e tigelas que apetece comprar, mesmo que não se saiba para quê. Aprender a domar os ponteiros do relógio, que se atrasam atrás de um tractor, numa estrada serpenteada onde o verbo ultrapassar se conjuga quase sempre com risco. Cumprimentar os patos na ribeira e ser gentilmente cumprimentado por quem não se conhece, rostos que apenas cruzam connosco os seus bons hábitos, aqueles que restaram de uma aldeia não muito longe no tempo e ainda fresca na memória.
Ir ao correio a pé e ter mesmo ao lado a farmácia. O ar perfumado pela lenha que cedo começa a aquecer a casa. Bandos de crianças percorrendo os caminhos de regresso, depois de um dia de escola e conversas que não se esgotam com o pôr do sol. O Oceano ao fundo da rua. O cheiro dos pinheiros e a caruma em cima do carro.
Ter prazer em chegar e ter nostalgia de partir. Encontrar no dia seguinte a paisagem redecorada e sorrir.
Vou ter tantas saudades!